terça-feira, 27 de abril de 2010

UPMUN 2010

A primeira edição do Model United Nations da Universidade do Porto (UPMUN) decorrerá nos dias 21 e 22 de Maio de 2010 na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

O UPMUN, à imagem de outros eventos académicos que seguem este conceito, consistirá numa simulação da actividade da Organização das Nações Unidas (ONU), nomeadamente do Conselho Económico e Social (ECOSOC) e Conselho de Segurança, com o intuito de proporcionar aos participantes a oportunidade de desenvolverem competências em termos de negociação e de resolução de problemas e de conflitos, bem como as suas capacidades de argumentação e o seu espírito crítico.

Este evento está aberto a todos os interessados, estando as inscrições abertas até 8 de Maio.

Mais informações disponíveis em https://sites.google.com/site/upmun2010/

Inscrevam-se! :)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Conferência sobre o Afeganistão

Amanhã, dia 28 de Janeiro, realiza-se em Londres a Conferência sobre o Afeganistão na qual a comunidade internacional discutirá o futuro daquele país.

Segundo a notícia publicada no website do Ministério dos Negócios Estrangeiros, o programa será o seguinte:

"A Conferência, que terá início em Lancaster House às 08:00 h do dia 28, será presidida pelo Primeiro-Ministro do Reino Unido, Gordon Brown, pelo Presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, e pelo Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon.

A I Sessão da reunião, com início às 10:00 h, sob o tema da Segurança, será presidida por David Miliband, e terá como oradores, o Secretário-Geral da NATO, Fogh Rasmussen, e o Ministro da Defesa do Afeganistão, Abdul Rahim Wardak.

A II Sessão, às 11:15 h, contará com as intervenções do Ministro das Finanças do Afeganistão e do Director do Banco Mundial que abordarão o tema “Governo e Desenvolvimento”.

Uma reunião subordinada ao tema da Sociedade Civil antecederá, às 14:00 h, a III Sessão dedicada à “Estrutura Regional” e à “Arquitectura Internacional”, tendo como oradores o Ministro dos Negócios Estrangeiros do Afeganistão, Zamal Rasoul, e o seu homólogo turco, Ahmet Davutoglu.

A Conferência terminará com um debate e apresentação de conclusões, a que se seguirá, pelas 16:30 h, uma conferência de imprensa."

Será que se chegará a uma conclusão útil ao fim de meio dia de discussão ou será esta mais uma daquelas conferências em que parece que se vai apenas picar o ponto? O leque de convidados e os temas a discutir são promissores, esperemos que as conclusões (e certamente haverá algumas) possam ser um passo importante para a estabilidade no país e, consequentemente, na região.

Auschwitz - 65 anos depois

65 anos depois e ainda há coisas por explicar

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

União Europeia - site interactivo

Já se encontra online, embora em actualização permanente no próximo mês, o site http://www.prepararfuturo-ue.eu/. Produto de uma parceria ISQ e Learn About, este site conta com o financiamento da Comissão Europeia através do Centro de Informação Europeia Jacques Delors (www.ciejd.pt). Os conteúdos ficaram integralmente sob a responsabilidade de Ana Isabel Xavier.


Podem conhecer melhor o projecto e áreas do site na primeira newsletter:

Estão já também online sondagens, fóruns de opinião e notícias.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Debate: Palestina



Dana e Lara Elborno, estudantes e activistas vão estar no próximo Sábado, dia 16, pelas 17 H na sede do SOS Racismo no Porto para uma conversa/debate sobre a situação política na Palestina e também sobre as suas experiências como activistas.

Mais informações no blogue SOS Racismo Porto

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A uva-passa de Kim Jong-Il

Kim Jong-Il, no seu reveillon, parece ter pedido com uma das passas desejos de paz para o mundo.

Depois do que escrevi no meu blogue sobre as intenções deste país em reatar boas relações com os Estados Unidos, ontem li no Público que a Coreia do Norte quer um tratado de paz com os americanos, mesmo compreendendo que isso implicaria uma reabertura das conversações sobre a questão do armamento nuclear, do qual o regime tem particular orgulho.

Causas para esta mudança? A asfixia provocada pelo isolamento internacional em todas as frentes parace-me ser a mais plausível. O envelhecimento de Kim Jong-Il não se afigura como possibilidade explicativa, apesar da personalidade ser um factor importante na análise internacional.

A concretizar-se realmente, esta reaproximação da Coreia do Norte aos EUA só pode ser vantajosa para ela e para todo o sistema internacional, uma vez que traz um grande alívio para os vizinhos sul-coreanos e em parte para a China. Temos que aguardar pelos próximos desenvolvimentos.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Personagens em revista - Tintim


Tintim faz hoje, dia 10 de Janeiro de 2010, 81 anos. Uma provecta idade para o aventuroso repórter, sempre acompanhado do bravo e fiel Milú. À partida, esta personagem da banda desenhada tem muito pouco que ver com a temática discutida neste blogue, mas quem já leu os seus álbuns sabe que não é bem assim. Como repórter, Tintim viajou por quase todo o mundo e teve a oportunidade de conhecer personagens intrigantes, incluíndo o comerciante português Oliveira da Figueira. Tintim presenciou momentos importantes da história mundial, como por exemplo, a saída do Japão da Sociedade das Nações, retratada no álbum "O Lótus Azul". Para além disso, ao ler os livros de Tintim temos a oportunidade de entrar em contacto com a propaganda da época, especialmente nos primeiros álbuns "Tintim no País dos Sovietes" e "Tintim no Congo".
Assim, é bom verificar que 81 anos depois, Tintim ainda é um grande sucesso ao ponto de Spielberg estar a realizar um filme sobre esta personagem com estreia prevista para este ano.
É com grande interesse que aguardo o filme, pois esta é uma das minhas colecções preferidas e que me tem acompanhado sempre.

Regresso

Antes de mais, gostaria de pedir desculpa aos nossos (eventuais) leitores por tão grande ausência. Os diferentes elementos do grupo têm agora outras responsabilidades, o que não permite uma actualização tão frequente do blogue. Contudo, e para que este projecto não fique em banho-maria, o "Mundo em Revista" regressa com algumas novidades.
Um Bom 2010 para todos!

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Obama pela Ásia

Sobre a ronda de Obama pela Ásia e algumas questões sobre a sua política externa e o sistema internacional, ver o que escrevi aqui e aqui.

domingo, 8 de novembro de 2009

Breathing earth!

Para os que não conhecem, fica a sugestão de um site impressionante! Vale a pena visitar! Com os nascimentos, as mortes e as emissões de CO2 por todo o mundo em cada instante. Dá para reflectirmos sobre o destino deste mundo e as implicações geopolíticas que as disparidades, de que nos apercebemos com a distribuição dos símbolos pelo mapa, podem vir a originar... Não podia deixar de partilhar.

http://www.breathingearth.net/

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Prémio Mo Ibrahim

Há dias no programa da Sic "Nós Por cá" tive conhecimento da existência de uma fundação que premeia a excelência de dirigentes africanos. A fundação Mo Ibrahim, entre outras coisas, premeia, anualmente, os líderes africanos eleitos democraticamente que cumpram o seu mandato nos termos estabelecidos pela constituição do país e que tenham deixado o poder nos últimos três anos.
O prémio é considerável: 5 milhões de dólares e ainda uma quantia de 200.000 dólares anuais para toda a vida. Este ano, contudo, não houve nenhum vencedor. O Comité decidiu não atribuir o prémio ao nomeado John Agyekum Kufuor, antigo presidente do Gana, por este ser suspeito de corrupção.
Esta notícia fez-me recordar o post "Eleições e... a Democracia?" escrito pelo meu colega André no seu blogue Internacionalizzando. O problema da eternização dos líderes nos seus cargos e da falta de renovação na política não é exclusivo do continente africano, mas será que esta iniciativa poderá ser um incentivo à democracia? E será que poderia ter sucesso noutras áreas do mundo?
Deixo à vossa consideração.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Para onde vao as tribos?

Quando um dia tive a oportunidade de conhecer um queniano que exerce funcoes na politica, surgiu o interesse, no decorrer da conversa, em saber quais sao afinal as orientacoes politicas maioritarias entre os cidadaos deste pais. Com isto referia-me ao espectro que vai da esquerda para a direita (ou vice-versa) e aos seus respectivos clusters. Nao sendo suficiente, tive ainda que lhe mencionar "socialismo" e "capitalismo" para perceber exactamente do que estava a falar. Um comeco so por si denunciador.
E que num pais como o Quenia as preferencias do eleitorado sao definidas mais por uma certa solidariedade para com o lider em questao, uma ascendencia sagrada em comum, do que por uma ideologia concreta e o compromisso para mudancas radicais. Esta tradicao conservadora e por isso bem mais expressiva atraves de comportamentos e accoes do que por obras, textos e pensadores de referencia.
Claro que se podera identificar qual dos dois, Odinga e Kibaki, seguira versoes mais a esquerda ou a direita. No entanto, excluindo alguns intelectuais e academicos, aqueles que apoiam Raila Odinga nao sao os desafortunados do Quenia, mas antes os seus "compatriotas" etnicos, os Luo, independentemente da sua classe social.
De facto, o tribalismo e um fenomeno cumulatorio de atitudes especificas atraves de geracoes. E, como consequencia, e quase por definicao colectivista. Por isso, este conservadorismo tribal africano e um corpo pensante em continuo consenso, ligando o passado com o presente e o futuro.



Aproveitem para estar a par da minha lista negra http://listanoire.blogspot.com/

Pelo Médio Oriente...

O Afeganistão, o Paquistão e o Irão chamam a atenção da comunidade internacional para uma das zonas mais instáveis do mundo, por diferentes motivos.



No Afeganistão, a Comissão de Queixas Eleitorais, cujos resultados ainda não são conhecidos oficialmente, ordenou a anulação dos votos provenientes de 210 mesas de voto, indicando assim que ocorreu, na realidade, fraude eleitoral. Segundo se consta, isso irá originar a descida do eleitorado de Karzai para menos de 50%, o que levará a uma segunda volta com o número dois, Abdullah. Ambos estão prontos para novo sufrágio.

No Paquistão, as forças nacionais continuam combates acesos e com resultados duvidosos contra o “centro do terrorismo”, ou seja, contra os taliban. Este movimento originou já a deslocação de 100 000 civis e calcula-se que várias outras centenas de milhares se encontrem encurralados com esta ofensiva.

Finalmente, no Irão, cada vez são mais fundamentados os rumores que dão como morto do Ayatollah Khamenei e a procura do seu sucessor, que promete uma luta de facções que poderá desestabilizar o país. Os sinais são vários: desde o encerramento do seu site pessoal, ao não aparecimento no Domingo a comentar o violente ataque que vitimou os Guardas da Revolução, a publicação de fotografias de encontros passados na imprensa oficial,… Até quando quererão manter a expectativa? Aguardemos pelas repercussões do desaparecimento do líder espiritual iraniano – ou muito me engano ou ainda vamos ver mais tumultos em Teerão.

domingo, 18 de outubro de 2009

Neoconservadores ou neofundamentalistas?

Em comentário ao meu artigo anterior, o Diogo Lourenço alertou para um aspecto importante. Quando designamos uma certa corrente política, muitas vezes recorremos a etiquetas de uso comum que são muito menos óbvias do que parecem. E de facto, o termo “neoconservador” é um caso flagrante disso mesmo.

Aqui, subscrevo na íntegra a reflexão de Tzvetan Todorov no seu conjunto de ensaios sobre A Nova Desordem Mundial (Asa, 2006): na verdade, os “neoconservadores” são tudo menos “conservadores”. Passo a citar:

«Porém, o termo «conservador» não tem aqui qualquer cabimento, como aliás observou um deles: «Os neoconservadores não pretendem de modo algum defender a ordem das coisas tal como existe, assente na hierarquia, na tradição e numa visão pessimista da natureza humana» (Francis Fukuyama, no Wall Street Journal de 24 de Dezembro de 2002). Esses pensadores acreditam na possibilidade de aperfeiçoar de modo radical o homem e a sociedade e estão activamente empenhados nesse processo. Mas neste caso não merecem o epíteto de conservadores (…). Uma expressão mais justa para os designar seria neofundamentalistas: fundamentalistas porque se reclamam de um Bem absoluto que querem impor a todos; e neo porque esse Bem é constituído já não por Deus, mas pelos valores da democracia liberal.
Nenhum destes dois ingredientes é verdadeiramente novo; em contrapartida, a sua combinação é inédita. Os fundamentalistas acreditam nos valores absolutos, pelo que rejeitam o relativismo envolvente (…). Não obstante, não sendo conservadores, querem propagar o seu ideal no mundo pela força. Desta perspectiva, é sobretudo o espírito da «revolução permanente» que evocam. Há que buscar as origens desta vertente do seu pensamento na esquerda revolucionária anti-estalinista. (…)
O pensamento que anima este aspecto da política externa americana não é, pois, conservador, do mesmo modo que não é liberal (na medida em que se impõe a unidade em lugar de deixar subsistir a diversidade).»

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Entre Marte e Vénus


Há certas obras que definem um dado momento histórico. Relativamente à política externa norte-americana da era Bush, Paradise & Power, de Robert Kagan, subintitulado America and Europe in the New World Order, é essa obra. Escrito em 2003, nas vésperas da Guerra do Iraque, o livro detém-se sobre o estado de tensão que então emergia nas relações transatlânticas e que se tornou explícito com a oposição francesa e alemã à intervenção militar norte-americana no Iraque. Para o autor, essa tensão não constitui um desencontro pontual e excepcional, fruto de uma mudança radical de prioridades por parte da administração Bush na sequência do 11 de Setembro. Pelo contrário, é a consequência natural de uma longa evolução histórica.

Conhecendo-se o percurso intelectual e político de Robert Kagan, marcado pela proximidade aos círculos neoconservadores, será eventualmente possível ler a obra como uma tentativa de legitimação da doutrina estratégica de Bush. Contudo, penso que vale mais a pena confrontar directamente a exposição de Kagan, em vez de entrar pela especulação em torno de possíveis segundas intenções. A tese central de Paradise & Power é que chegamos a um ponto em que norte-americanos e europeus deixaram de partilhar a mesma visão do mundo – ou, se quisermos ser mais precisos, a mesma cultura estratégica. Os norte-americanos são de Marte; os europeus de Vénus. Ou seja, enquanto os americanos continuam a assumir a power politics como o paradigma fundamental das relações internacionais e se assumem a si próprios como um actor num mundo onde ainda reina a anarquia hobbesiana, os europeus parecem caminhar já para lá da power politics, em direcção a um «paraíso pós-moderno» corporizado pela União Europeia que visa realizar o ideal kantiano da paz perpétua. As implicações desta divergência são enormes. Se de um lado existe um forte poder militar e a disposição para o utilizar, do outro cresce a dúvida em relação à eficácia e à moralidade desse tipo de poder. Se uns atribuem um valor meramente instrumental a tratados e organizações internacionais, os outros vêem neles essenciais fóruns de negociação diplomática e expressões de um desejável multilateralismo.

Quais as razões para esta divisão de caminhos? Certamente, existe na Europa a memória histórica de séculos de sangrenta balança de poderes. Por outro lado, o processo de construção europeia, com a sua lógica própria, veio mudar algumas sensibilidades e também provocar um certo alheamento europeu relativamente às questões internacionais. Contudo, de acordo com Kagan, a principal razão reside no crescente fosso de poder – militar, acrescente-se – entre EUA e Europa. Isso acabou por provocar, numa perspectiva histórica, uma curiosa inversão. Se, no início da sua história, os EUA, numa posição de relativa fraqueza, valorizavam a legalidade internacional, a diplomacia e a negociação, hoje, com uma hegemonia incontestada, são os primeiros a recorrer, sempre que necessário, à acção unilateral. Com os europeus, ocorreu o processo inverso. E se as potências identificam e avaliam ameaças à sua segurança diferentemente, consoante o seu poder ou fraqueza relativos, então é natural que americanos e europeus dificilmente se entendam no contexto actual. É esta, segundo Kagan, a verdadeira natureza do problema transatlântico e também a razão pela qual ele é provavelmente inultrapassável, pondo em causa a coesão do «ocidente».

A análise de Kagan é inegavelmente perspicaz e sempre intelectualmente honesta. Mesmo que, na questão do Iraque ou noutras, estejamos, como eu estou, longe das posições neoconservadoras, é possível subscrever grande parte da argumentação de Kagan. Isto porque há uma questão que permanece sem resposta. Face aos novos desafios na cena internacional, qual a postura mais apropriada? As estratégias «soft» dos europeus ou a abordagem «hard» americana? Depreende-se que Kagan confia mais na segunda, mas o seu esforço argumentativo não é direccionado para essa questão[1]. Em última análise, só o tempo poderá comprovar ou desmentir a previsão de Kagan de turbulência constante nas relações transatlânticas. A atmosfera parece bastante mais desanuviada desde a eleição de Obama, mas ainda é cedo para extrair conclusões. E depois, claro, podemos interrogarmo-nos sobre a centralidade, no quadro actual, dessas relações. O que vale, actualmente, a coesão do «ocidente» (entenda-se aqui o conceito na sua acepção estritamente geopolítica), quando o bloco opositor já desapareceu? Esta interrogação está já para além do âmbito da análise de Kagan. Contudo, importa tê-la em mente para percebermos até que ponto, apesar de tudo, o autor deve ainda muito a uma economia mental herdada da Guerra Fria.

[1] Note-se que, em relação ao Iraque, Kagan parte sempre do princípio que o regime de Saddam possui armas de destruição maciça. Hoje, temos razões fortes para rejeitar essa hipótese.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Histórias

Este video mostra não só uma excelente contadora de histórias, mas também uma forma diferente de recordar a Segunda Guerra Mundial.
Deixo-vos o link: http://www.youtube.com/watch?v=518XP8prwZo

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Viva a República!


Há 99 anos atrás, Portugal libertou-se da monarquia e dos seus privilégios de sangue.

sábado, 3 de outubro de 2009

A Irlanda e o Nim

Mais uma vez a Europa está no centro das atenções. Ao contrário do que se passou em Junho do ano passado, os irlandeses votaram favoravelmente o Tratado de Lisboa. Como muito se lê por aí, ficou resolvido o impasse criado pela crise institucional aberta pela nega irlandesa.

Sabemos que a Irlanda foi o único dos 27 (por imposição constitucional) a utilizar o referendo como forma de legitimação deste tratado internacional. Apesar de ter noção da importância deste texto constitucional, sobre o qual publicarei um pequeno artigo brevemente, tenho algumas dúvidas sobre a necessidade de referendo para a aprovação do dito tratado. É uma questão de soberania, é certo; envolvem-se interesses nacionais, correcto. Contudo, veja-se o que se passou na Irlanda e, isso sim, considero deplorável. Os irlandeses recusam o tratado – com a ameaça do fantasma da cedência de soberania, o aborto à espreita, etc etc. – e toca a fazer novo referendo, um ano depois, a ver se é desta.

Enquanto europeísta convicto, lamento sinceramente que os líderes europeus dêem razões aos cépticos para questionarem a legitimidade democrática da União; mas efectivamente é o que eles parecem fazer com demasiada frequência. Vá lá que desta vez os irlandeses estavam assustados com a crise, ponderaram a possibilidade de receber mais fundos em troca de uma simples cruz num boletim de voto e foram avisados de que o aborto não seria legalizado com a ratificação do tratado: mais 5% dos eleitores foram às urnas e desses 67,1% votou “sim”.

Agora aguarda-se que a Polónia e a República Checa ratifiquem o tratado, que já se atrasou uns meses em relação ao desejado pelos eurocratas em Lisboa aquando da assinatura do Tratado e a Europa sobe novamente à ribalta do palco internacional, como diz o Süddeutsche Zeitung. Resta-nos agora esperar para ver se realmente a adopção do Tratado trará o reforço institucional que a União Europeia clama como condição sine qua non para que esta desempenhe o papel de uma potência mundial, interventiva e com influência.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Papel químico

Como o Pedro bem explicou no seu artigo, não só os portugueses foram às urnas este Domingo. Na realidade, as atenções da Europa estiveram mais viradas para outro sufrágio – o que aconteceu no velho motor da Europa, a Alemanha. A análise feita no artigo “As outras eleições” e a consciência dos resultados das legislativas em Portugal levam-me a crer que a conjuntura internacional, com maior relevo para a crise mundial que atravessamos, serviu de papel químico para as duas eleições. Senão vejamos.

Merkel, a já chanceler alemã, saiu vitoriosa. Sócrates, o já primeiro-ministro português, também. 33,8% para o CDU, 36,5% para o PS. Merkel alcança os seus dois objectivos e formará coligação com o FDP, o que permite descalçar a bota do SPD, já Sócrates ponderará, eventualmente, uma coligação ou poderá manter-se “orgulhosamente só”, numa política de zig-zag e constantes conversações e alianças como sugeria ontem um comentador. Em ambos os casos, como é visível, quem venceu, foi o status quo, que, aliás, Obama e Sarkozy felicitaram, dado o pragmatismo centrista da chanceler.

Contudo, os dois partidos que mantiveram a maioria relativa, fizeram-no com uma descida. De 2005 para 2009, a CDU baixou quase um ponto e meio percentual, enquanto que o PS teve que aguentar com uma descida na ronda dos 8,5%. Ambos desceram. Mas não foram os únicos: com eles, baixaram também, grosso modo, os partidos maioritários da oposição, ou seja, o SPD e o PSD – com rigor, o partido social-democrata português não viu o número de eleitores diminuir, sentindo até um pequeno aumento de o,3%, o que não era expectável de um partido da oposição. Na mesma lógica de pensamento, o SPD sofreu uma queda de quase 10 pontos relativamente a 2005, o que aponta para um resultado desastroso do partido do ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros.

A questão que se coloca então é para onde se terão desviado os votos? Naturalmente, houve uma fuga dos chamados “votos de descontentamento” para partidos mais pequenos e emergentes. Mais uma vez, isto aconteceu em ambos os países, onde se nota uma confluência das curvas – os maioritários a descerem e os pequenos partidos a subirem na preferência do eleitorado. Die Linke passa de 8,7% para 11,9%; o BE aumenta de 6,4%, quase alcançando a fasquia dos 10%. O FDP, com quem Merkel pretende coligar, transformou os seus 9,8% para 14,6%; o CDS português ultrapassa os 10%, subindo 3,22 pontos percentuais face às últimas legislativas. Poderia ainda nomear os exemplos do PCP ou dos Die Grüne para esta listagem.

Assim, a par desta tendência de manutenção do status quo, que não se altera bruscamente, como é óbvio, tanto Portugal como a Alemanha vivem este movimento de emergência e consolidação de partidos mais pequenos, com uma maior tradição nesta última. E assim dois países se preparam para continuar a lutar contra a crise.

As outras eleições

Não foi só em Portugal que houve eleições este domingo. Também os alemães foram a votos, após uma campanha serena como poucas. Ganhou o centro-direita (CDU) de Angela Merkel, que muito seguramente irá fomar uma coligação com os liberais do FDP, que obtiveram o melhor resultado da sua história.
No entanto, não se tratou de uma vitória muito festejada pelos democratas-cristãos. Vão, é certo, poder coligar-se com um parceiro em teoria mais próximo ideologicamente, largando a companhia dos sociais-democratas. Porém, a convivência com o FDP não será exactamente fácil, até porque Merkel não parece disposta a ceder no essencial: a segurança social não será privatizada e as leis laborais não serão modificadas no sentido de facilitar os despedimentos. Por outro lado, importa ainda referir que, apesar da vitória, a CDU teve o pior resultado, em termos percentuais, desde 1949.
Quanto ao grande derrotado destas eleições é que não restam dúvidas. Com 22% dos votos, o SPD tem, de longe, o seu pior resultado do pós-guerra. A meu ver, trata-se da consequência lógica de uma social-democracia que só tem sabido estar na defensiva, incapaz de se diferenciar substancialmente dos democratas-cristãos que lideraram a última coligação de governo.
Por fim, importa realçar, a par de um resultado razoável dos Verdes (10%), a consolidação do Partido de Esquerda (Linke), que chegou aos 12% dos votos. É esta Linke que, creio, poderá ajudar à renovação interna do SPD e abrir-lhe perpsectivas de poder no curto-prazo.